24/01/2021

Observando nossa sede de plenitude

 

O: É impressionante o poder que vai se instalando de perceber de instantâneo, os requintes dramáticos produzidos pelo imaginal condicionado.

F: De tão dramáticos, eles viram uma comédia dramática... sem sentido quando observados atentamente... alimentados pelo coletivo... pura preocupação com tudo...

O: Isso não era percebido, e é o que causava nossos momentos depressivos, toda forma de angústia.

F: Isso foi a exata natureza de todo sofrimento nosso. Foi o que nos impediu, lá atrás, de pelo menos termos esse estado que temos agora, se é que isso existe...

O: Conforme isso é visto como uma dramaturgia do imaginal, não dá espaço para o sensorial se identificar.

F: Isso que eu quis dizer ontem, na percepção de como quando não observado atentamente e de forma relâmpago, pega o sensorial gerando ansiedade, angústia, pânico, solidão, etc.

O: Antes isso ocorria de imediato e, com essa identificação do imaginal, a psicossomatização ocorria em conjunto, daí a letargia, a total perda de energia.

F: Antes não dava para perceber que era o imaginal e sim apenas pegar o lance que já estava instalado no sensorial... era um constante reclamar do leite derramado pelo imaginal. Hoje há um acúmulo de energia.

O: Agora, a observação não deixa a totalidade da energia escoar, mas ainda perdemos uma pequena parte dela.

F: Parece isso... Foi isso que eu disse com o lance de não perder “tempo” com a observação... Aqui precisa ser vista mais detalhadamente. Já não há energia desperdiçada em reclamar ou catar a migalhas. Já não há mais preocupação com a própria observação e a não identificação. É notório o estado alterado de preocupação em que vivíamos. Isso fica muito claro quando observamos não só a nós mesmos, mas também as pessoas que não estão nesse momento de percepção. Não se trata de um imaturo sentimento de superioridade, como os que alimentávamos antigamente de modo totalmente inconsciente. Mas era pura preocupação consigo mesmo, causada pelo imaginal condicionado.

O: Entendo o que você está apontando.

F: Camadas e mais camadas de estrutura eram acrescidas a cada instante, pela preocupação excessiva consigo mesmo, em identificar e nomear o que se passa num determinado momento do processo. Quem não está nem nisso, é só identificação com a preocupação que rola... Com a gota da chuva que vai cair, se vai chover na segunda-feira, porque pode acertar o buraco que tem no canto esquerdo do telhado na sala. Entende? Claro que entende! Sei que você já se percebeu disso! Essa a energia que não é mais gasta com essas viagens num futuro imaginado, fica aqui, dando cada vez mais clareza na percepção do aqui e agora, certo? É isso que percebo por aqui!

O: Não tiro uma vírgula; trata-se da mesma percepção até aqui.

F: Sério? Nossa!

O: É impressionante perceber o quanto fomos joguetes do imaginal sensorial condicionado, bem como a percepção de como não somos mais hipnotizados por seu mecanismo.

F: Exatamente! Aqui você acertou na mosca! Esse é o ponto central que demonstra todo processo e que desmonta toda, toda, toda estrutura em que estava sustentado o que tínhamos por viver. Não estou afirmando com isso, que já saímos totalmente da estrutura. Digo no sentido mais perceptível do que acontece por aí: trabalho, carreira, finanças, metas, planos, crenças, etc., etc., etc. Não estamos mais grudados nisso, tendo só isso por vida. Ao menos não temos mais nada a ver com isso, a não ser no mínimo que é necessário para a sustentação do corpo. Ao menos foi vista com clareza, a ilusão da compartilhada estrutura social condicionada.

O: Hoje, por ação da observação passiva não reativa, temos condições de ver lucro, onde todos só enxergam prejuízo.

F: Na mosca. Isso que eu queria dizer. A observação pega até os espaços entre os pensamentos. Ontem isso ficou bem claro; durante a observação havia momentos de espaços curtos entre os pensamentos, e mesmo isso não é fator sine qua non para ocorrer algo. Aqueles lapsos vêm do nada, de modo misterioso.

O: Tem que ocorrer um libertário derrame de lucidez amorosa e integrativa. Isso é claro para mim. No mais, só continuaremos a conhecer mais e mais, tanto o funcionamento da estrutura quanto da observação, tomando cada vez mais consciência do viver em limitação que a estrutura produz, um viver destituído de real comunhão e propósito. Por mais que você queira, a estrutura impede isso. Você fica cada vez mais consciente da sua impotência em saber o que é liberdade, felicidade e amor impessoal.

O: Sem a ocorrência de tal derrame, permanecemos observando, em meio de um viver insosso, a nossa sede de plenitude.

23/01/2021

Não levamos mais a sério o fluxo do imaginal

 

F: Então, vemos que a estrutura é tanto passado como futuro, o que deveria ser, o que será, o que foi, como o que é, no entanto, nem o que é, ainda é de fato o que é. Mas vamos ficando com o que é, e as interpretações vão caindo por terra. Não ocorre mais afetação. Todos os prós e contras, acaba toda a babaquice conceitual e só fica mesmo, essa inquietude primeira. Isso é o que percebo aqui, é o que sinto.

O: Quando você diz “babaquice”, não seria uma forma de ainda levantar prós e contras?

F: Pode ser sim. Digamos então, que agora, você vê todo jogo, tudo.

O: Não seria melhor dizer que vemos uma parte mais avançado do jogo? Não creio que podemos afirmar que estamos vendo tudo.

F: Não vemos, porque o fluxo não parou até agora, ele continua em sua mecanicidade não solicitada. Ele segue, não é algo estático. Essa é a percepção do momento, e do próximo, próximo, próximo... Digamos assim, só para nos comunicarmos.

O: Mas é ainda uma percepção fragmentada do momento, sempre presa num ponto mais pessoal.

F: Acho que por isso, a conclusão é abandonada cada vez mais rapidamente. Concordo que ela ainda é fragmentada, no entanto, percebo que nela estão ocorrendo significativas mudanças. Seus principais padrões, vão sendo vistos na estrutura. Isso é o que tenho percebido até então. Enfim, é isso!

O: Como a identificação com o fluxo vai caindo por terra, tudo que diz respeito ao que é produto da compartilhada estrutura social condicionada, também está caindo por terra.

F: Pode ser isso mesmo... A ignorância quanto a estrutura inquieta como a exata natureza de tudo, me parece ser o ponto.

O: Percebido o ponto, o conteúdo do mesmo não é mais levado a sério.

F: A própria estrutura faz de tudo para ignorar o fato dela ser a causadora de todo tipo de confusão, seja ela pessoal ou interpessoal. O que se imagina, nunca é o que é. Esse é um ponto que já se mostrou factual para mim.

O: Fica então, inevitavelmente, é um grande vácuo de ação.

F: Isso. O conteúdo projetado pelo fluxo já não importa mais. É como assistir filmes com roteiros diferentes, mas que todos terminam da mesma forma. Você não precisa mais nem prestar atenção, uma vez que já conhece o final. O que quero dizer com isso, é que não há esforço nesse desinteresse quanto as projeções do fluxo.

O: Visto isso, não há mais o mínimo interesse de ver os filmes, as projeções.

F: Exato. Todo trailer, todo filme perdem o sentido. De fato, nunca houve qualquer sentido nisso.

O: Mas ainda não se apresentou um novo enredo de ação; as células cerebrais se alimentaram por décadas do velho enredo.

F: Enredos de reclamações, chorumelas, dramas, problemas, etc., etc., etc. Nada mais que projeções mecânicas e não solicitadas, só filmes. Décadas de enredo e de envolvimento emotivo reativo com tudo isso, sem a menor percepção, sem o menor questionamento quanto ao seu mecanismo. Esse foi a exata natureza de nosso sofrimento por tanto tempo.

O: Não surge outro enredo, e o que surge, é visto como parte do mesmo enredo compartilhado.

F: Nunca foram as questões exteriores, nunca foi o comportamento alheio, muito menos, aquelas circunstâncias camufladas de “interiores”, tipo: depressão, angústia, ansiedade, solidão, etc., etc., etc. Quando, pela observação passiva não reativa, identificamos esse mecanismo de funcionamento, acabou! Corta o poder ilusório de identificação. E nem se trata de uma calculada ação pessoal... Digamos assim, nem somos nós que fazemos, isso ocorre por si. Não há um “fazedor”.

O: Sim, isso ocorre por si, e sem a menor possibilidade de retorno.

F: Não há uma entidade fazedora, não há aquele que faz, como anteriormente imaginávamos. Pode ser aí que então houve a confusão com a criação de um Poder Superior

O: Sim, um fazedor celeste, um fazedor divino.

F: Exato. Sem essa coisa de “Pai Divino”, “Eu Maior” para quem temos que orar e rogar. Nada daquela ilusória concepção de um Deus da sua concepção.

O: Sim, nada, nada, nada disso!

F: Percebe o golpe aplicado pela estrutura? Uma mente confusa formulando sua própria concepção de Deus...

O: Algo, talvez, celular, bioquímico?

F: Sim. Algo ali, já faz o serviço da própria observação, sem esforço de nossa parte. Algo já roda por si.

O: Não importa! Não tem como conjecturar. O que importa é que está ocorrendo uma significativa mutação no poder de percepção, de modo impessoal.

F: Bingo! Sim, não dá! Mas você concorda que algo roda por si? Certo?

O: Uma mutação que não aponta para um ponto de chegada pré-estabelecido.

F: Não estamos mais lamentando, quando dizemos que uma percepção precisa ocorrer. Não se trata do antigo e neurótico chororô, nada de mimimi.

O: Ou da velha esperança dos sistemas de crença organizada.

F: Olha, vou te dizer, sinto que estamos fazendo uma narrativa do processo.

O: Uma sóbria constatação da necessidade de um nível mais radical de percepção.

F: Isso está cada vez mais óbvio.

O: Não se trata de misticismo, esoterismo ou ranço dos sistemas de crença.

F: Tudo isso já foi percebido como balela. Nada de Planeta Aurora, de Deus do sol, ou outras crendices com bases em mensagens canalizadas.

O: Nada de abertura final dos chacras ou de um terceiro olho.

F: Nada disso se fez verdadeiro.

O: Só a capacidade de percepção não condicionada a algo além de si, e nem mesmo por si, nem pelo conteúdo do passado.

F: A observação vai fazendo aquilo que, de modo algum, conseguíamos fazer por nossos próprios e limitados esforços.

O: Mas a própria observação, ainda está em relação aos fragmentos.

F: Sim, mas é o que temos para agora. Chega-se num ponto em que tudo que experimentamos está consumado. Se algo que ocorrer na percepção, a mesma pode mudar demais. Nossa experiência é prova disso. É como dizia o poeta: “Esse caminho que eu mesmo escolhi, é tão fácil seguir, por não ter onde ir”.

O: faz todo sentido! Os poetas apontam, mas, quem tem olhos de ver?

F: Isso, tem olhos e não vê. Todo lance é que o cabeção vai aquietando após o quebra ondas, após a noite escura da projeção... Aí você tem uma observação mais apurada da estrutura. Antes disso, não tem como. Duro chegar aqui!

A necessidade de algo mais radical, além da observação

 

F: Pra mim fica cada vez mais claro:  ninguém vê a ação do imaginal; ninguém vê que é o imaginal que sempre está causando, gerando conflitos pessoais e interpessoais. Se a observação não se instalar para esse fato de que é o imaginal o único causador de tudo, e nada mais, nada mais, nada, nada... o indivíduo está pego. Está pego! Vai levar uma existência inteira trocando seis por meia dúzia. E se por acaso chegar nisto aqui, é capaz de ficar mais louco ainda.        

O: De fato, ninguém vê o imaginal, alguns até imaginam que veem o imaginal. Se não conseguem ver nem mesmo o fluxo do imaginal, como é que podem ver o impulso emotivo reativo? Nisso permanece toda reação neurótica.

F: Depois de ver com minuciosidade, grande parte da estrutura de funcionamento do imaginal, até mesmo a moda deixa de fazer sentido.

O: Tudo é visto como variações das modas do próprio imaginal. É o imaginal imaginando que aquilo deve ser usado naquele momento, que aquilo tem valor naquele momento, naquela estação.

F: Isso.

O: Você percebe que a inquietude que você sente agora, sempre esteve ai, desde a mais tenra idade, e que ela sempre foi causada pelo imaginal? E que foi justamente a inquietude original do imaginal, que impediu sempre a vivência integral das experiências do momento? Essa inquietude sempre fez a gente andar pelos ambientes como que se pisando em ovos, sempre com medo, com incerteza e com um forçoso comportamento de ajustamento. Percebe isso?

F: Sempre esteve e percebo que ela é causada pelo próprio imaginal. Inquietude quando não observada, somatiza ansiedade.

O: Observe melhor: a inquietude é ansiedade, não se trata de uma somatização.

F: Sim, ela é. Mas, quando vista, ela não é somatizada. Percebi ontem.

O: Sugiro que observe melhor, e verá que isso não se trata de um padrão.

F: A inquietude fica sempre pedindo algo, fica trazendo ideias e mais ideias, como se fosse necessário perseguir tais ideias.

O: Uma experiência só, não pode ser tomada por padrão. Mesmo olhando a ansiedade, ela fica aí enquanto quer.

F: Se você não percebe isso, a coisa vai entrando no sensorial. Interessante perceber isso.

O: Você pode não se identificar com o que é pedido pela ansiedade, mas, mesmo assim, ela permanece. Mesmo a observação é impotente diante dela; o mais que a observação pode fazer é ajudar a não reagir aos ditames da ansiedade. Só isso. A observação não tem o poder de interromper o fluxo da ansiedade. Querer interromper o fluxo da ansiedade, só tem o pode de acrescentar ansiedade à ansiedade original.  

F: Ela é a estrutura crua. Mesmo quando ocorre a reação, depois de ter sido vista a própria reação, a inquietude está lá.

O: Ela funciona em looping. Não traz resultado diferente.

F: Se você fica parado observando, a inquietude fica pipocando pedindo algo que, numa observação mais apurada, é percebido como nada a ver.

O: Se você observar bem, verá que sempre foi esse o mecanismo. Onde você estava, por causa da inquietude original, você não estava bem. E, quando pensava estar bem, não percebia a base de ansiedade, manifesta pelo medo da experiência ou a circunstância acabar. E, não raro, ao fim da situação que aparentava bem-estar, lá estava a inquietude, manifesta em melancolia, a qual, para ser superada, trazia a ansiedade pipocando pedindo por mais daquilo ou por algo diferente.

Felipe: É isso mesmo, esse é o ponto que tem que se pegar. Esse ponto a observação só vai constatar.

O: A inquietude sempre vinha das vozes do imaginal ordenando: “Busque isso... Faça isso e você encontrará um sentimento diferente”.

F: Mas enquanto o indivíduo não vê isso, permanece no looping de busca ilusória. Isso leva a buscar por algo, por uma ideia, por um sentimento ou circunstância imaginada, por uma dose de algo mais que é criação do imaginal.

O: Sim, faça aquilo e, quem sabe, você encontrará um estado de ser diferente, você vai saber o que é felicidade, liberdade e amor.

F: Exato. A mente segue nesse looping cujo fim se mostra nas consequências...

O: E aí começa um novo looping de ansiedade, pipocando para fazer algo quanto as consequências. Veja como tudo isso é patético!

F: Exato! Essa percepção é matadora; nos lança num profundo xeque-mate.

O: Você sabe, nada significativo foi encontrado nesse modo de funcionamento, o qual sempre terminou em algum modo de insanidade.

F: O limite da estrutura parece ser isso. Quem chega nisso, percebe a limitação da própria observação; é só um olhar além da estrutura, que pode nos libertar da adulteração da estrutura. Quando chegamos nesse momento, é visto que ficar observando a estrutura, também é outra atividade enfadonha. Isso é sentido. Essa inquietude me parece que vem do fato de negar o óbvio de que, tudo, tudo, tudo, tudo, tudo, é passante, e a estrutura tenta, de alguma forma, fazer com que algo seja permanente. Aí fica o lance central que hoje é percebido: O oco é a inquietude primária. Se não instalar a percepção de que o imaginal é o grande causador de tudo... acabou... Esquece! O ponto central é a instalação da observação, a qual vai aprofundando cada vez mais e permitindo esses lances de percepção. A observação muda assim como muda a percepção.

O: Não se trata de escolha.

F: Sim, não se trata de escolha. Em nenhum momento afirmei isso.

O: Não tem mais como deixar de observar.

F: Isso é um fato. Uma vez que a mente se abre para uma percepção da realidade, impossível voltar ao estado anterior de percepção. Do mesmo modo que o fluxo do imaginal, a observação passiva não reativa acaba rodando por si.

O: Antes, devido o fato do imaginal não ser percebido de imediato, não se vivia as circunstâncias em sua integralidade. Mesmo vendo o imaginal, percebo que o mesmo ocorre, não há uma percepção integral, a percepção ainda se dá em partes.

F: Por isso é que afirmo ser besteira se debruçar por respostas no imaginal. Por vezes sinto ser difícil relatar o que percebo. Mas é algo semelhante quando você diz: “Tudo está consumado”. Nisso você pega o tronco, a aorta que bombeia a estrutura. Chegamos no mesmo ponto que eu só vi o Krishnamurti é o Bohn chegarem; mesmo o psicólogo David Shainberg, não conseguiu pegar isso. Naquela entrevista, só os dois chegaram nisso. Sensacional isso. No entanto,  David Shainberg disse que o fluxo do pensamento para; já o Bohn afirma que o fluxo não para, que o mesmo permanece em looping, enquanto que Krishnamurti, fala que nisso ocorre uma mutação total na estrutura. Pronto! Veja que interessante chegarmos nisso por experiência própria, portanto, já não importa se eles chegaram ou não na percepção disso.

O: Concordo!

F: A observação não é algo que nos leva a algo; ela é o que pega a estrutura aqui e agora, com essas ideias de ter que chegar a algo. É por meio da observação, que deixamos de ficar como antes, feito baratas tontas por aí, se alimentando das pútridas migalhas psicológicas da mesa de terceiros. Ela só serve para pegar as projeções e os impulsos emotivos que parte da estrutura, e nada mais! Chegamos nisso!

O: Concordo! Algo mais radical, além da observação, precisa se manifestar de modo libertário. É o que percebo aqui.

Quebrando o condicionamento da busca espiritual

O: Bom dia! Acordei meditando na percepção que Raul Seixas tornou comum numa de suas músicas... Ah! Eu devia estar sorrindo e orgulhoso por ter finalmente vencido na vida, mas eu acho isso uma grande piada e um tanto quanto perigosa. Eu devia estar contente por ter conseguido tudo o que eu quis mas confesso abestalhado que eu estou decepcionado. Ah! Mas que sujeito chato sou eu que não acha nada engraçado, macaco, praia, carro, jornal, tobogã, eu acho tudo isso um saco. É você olhar no espelho, se sentir um grandessíssimo idiota, saber que é humano, ridículo, limitado, que só usa dez por cento de sua cabeça animal...

F: Sim, e que tenta quebrar o tédio, pagando caro, pela milionésima vez, pra poder dar pipoca aos macacos...

O: Alguma sugestão inteligente?

F: Hoje é sábado! Tenta novamente, pão com mortadela... Imaginal não perdoa, enquanto escovava os dentes, já veio com o looping de sempre: “A Vida não pode ser só isso”, “Larga o serviço”, “O Viver é essa bosta”, “Se divorcia”... Mas a observação pega tudo isso, e nada fica, tudo vai pelo ralo... Só rindo! A estrutura é lazarenta; dela não sai nada bom, só loopings de delírio dramatizado, sendo que a única coisa que realmente está ocorrendo é a escovação dos dentes...

O: A estrutura diz que o sentido da vida está em algum fazer diferente e não em ser diferente no sentir de ser.

F: É bem isso! Sempre se comparando com os outros, com o padrão de comportamento condicionado socialmente estruturado.

O: Você pode cultuar a cultura, o padrão de comportamento condicionado socialmente estruturado, o politicamente correto, enquanto não desperta a inteligência da observação; depois disso, tudo isso se mostra enfadonho e sem sentido.

F: A observação estrangula a antiga e ilusória identificação com o modus operadis.

O: As conversas, as notícias, as convenções, os cânticos, as instituições, os programas de entretenimento... tudo se mostra altamente enfadonho.

F: É exatamente o que sinto neste exato momento: livros, músicas, esportes, filmes, tudo...

O: Sim, tudo carece de real sentido, e isso é sentido sem qualquer depressão, raiva ou coisa do gênero, trata-se de uma constatação sóbria, onde se percebe claramente, que isso tudo, na verdade, nunca preencheu de fato nossa necessidade de sentido. Muito disso foi alimentado por nós, ao longo dos anos, devido nossa imatura necessidade de pertencer, de se enquadrar no estabelecido.

F: Sim, sem depressão, pânico, nada disso. Só uma sóbria constatação da ignorância que até então, permanecia camuflada.

O: Mas agora, com essa autonomia psíquica que está se estabelecendo, não faz mais sentido se forçar ou simular interesse nisso tudo.

F: Pela observação, chega-se na percepção de que vivemos numa sociedade sustentada pela ignorância... Ignorância no sentido do imaginal, de como tudo é impermanente, tudo, tudo... 

O: Sempre houve uma neurótica preocupação com a opinião alheia, o que fazia com que seguíssemos os maneirismos sociais, sem a menor possibilidade de questionamento. Agora, essa preocupação está cada vez mais por terra

F: E a cultura, religião, filosofia, ciência etc., etc., sustentam e escondem o fato principal, que é a rede de condicionamentos.

O: Não sei se podemos dizer que esconde... penso que nem desconfiem do fato.

F: Pode ser isso. Sendo um pouco mais claro, veja isso: Previdência, aposentadoria, seguro de vida, carreira permanente, casamento duradouro, vida eterna... Veja como tudo isso é nocivo.

O: Porque você vê isso tudo como "nocivo"?

F: Nocivo no sentido de que escondemos o fato principal, através das atividades que não visam buscar real sentido da vida.

O: Penso que só quem não sabe que ele mesmo é a própria vida, busca nas convenções estruturadas, uma forma de sentido da vida. Mesmo a ideia de buscar pelo sentido da vida, é mais uma das ilusões criadas pelo imaginal sensorial condicionado.

F: Exato!

O: A busca do sentido da vida é mais um impulso emotivo reativo escapistas e separatista. Um impulso para fugir de onde você se encontra no exato momento.

F: Esse é o impulso mais extremo. No limite de descrição de uso de palavras, pode-se dizer que cada coisa que há, é vida. Mesmo isso ainda é descrição, mas até o indivíduo chegar nisso, a busca faz parte. Isso hoje é claro para nós.

O: O imaginal diz: aqui não tem sentido, quem sabe ali ou acolá, encontrarei o real sentido da vida.

F: Mas a busca nos trouxe aqui. Isso está claro agora. Mas veja o que rodamos para chegar nessa percepção... Quanta ilusão tivemos que abraçar, quanta prática ilusória, quanta promessa irreal. Parece que sem elas, muitos não aguentam e surtam.

O: O imaginal sensorial condicionado, a mente com base no medo, cria um looping ilusório que ele chama "busca de sentido da vida".

F: Esse é um ponto que depois de pego, produz uma significativa mutação na qualidade do olhar. Depois que o indivíduo tem um leve lampejo de sua exata natureza incondicionada, depois que ele sente aquilo que é impossível de ser colocado em palavras... Tudo isso fica sem sentido. Isso fica muito claro pra quem viveu aquilo que não pode sequer ser nomeado.

O: Enquanto você não vivencia um breve lampejo do estado incondicionado de ser — que não é nada mais do que você mesmo —, o imaginal tem o poder de causar a ilusória identificação com a busca de sentido nas condicionadas situações externas.

F: Porque maioria nem buscar sentido busca... Busca sentido até ver que a busca não tem sentido algum. Quando o indivíduo pega isso, percebe que o condicionamento da busca, é o looping principal. Penso que aqui foi a grande mudança, e acho que você leva o processo para esse extremo, fazendo isso muito bem. Isso é seu.

O: Mesmo vivenciando um breve lampejo do estado incondicionado de ser, o imaginal cria outra forma de ilusão de busca de sentido, colocando como fator de busca, encontrar um modo, um sistema, um mecanismo que seja capaz de tornar o que foi vivido por meio de um lampejo, um estado permanente de ser.

F: Lindo e claro! Penso que deveríamos falar mais sobre isso, porque foi algo impermanente! Uma hora, se o indivíduo é sério, inevitavelmente, chega na percepção maior do lapso do tempo e espaço... Não tem saída! Porque a coisa só está condicionada e, conforme tudo isso vai caindo... pummmm!!

O: Quando a observação pega isso, cai por terra toda ideia de espiritualidade ou de prática espiritual, por ser percebido como mais um dos engodos criados pelo imaginal sensorial condicionado, por mentes que ainda se mantinham presas numa base de medo e cálculo autocentrado, pela imatura necessidade de filiação.

F: Ver que a descrição não é a coisa, já estamos vendo isso... Buscar, correr, nomear... Ver que a mente ficou presa tentando saber o que é você, o que é a vida, ver que o imaginal, no máximo no máximo, só pode medir e interpretar, tentar dar nome aos bois. A própria leitura era uma prática; a própria observação que foi uma prática, agora deixou de ser.

O: Veja que não há diferença nos tipos de loopings ilusórios... um sistema pede para você rezar o Pai Nosso e Três Aves Marias, enquanto outro, pede para você acreditar no seu guru e ficar repetindo a pergunta "Quem sou eu?"... Mas, você pode se sentar uma existência inteira com alguma dessas práticas entre outras tantas mais, como faz a grande maioria, e nunca chegar em nada mais do que a manutenção da ilusão.

F: Sim! Praticar passos, idealizar um Deus, rezar, rogar para Ele, escrever inventários morais e partilhá-lo, manter a dependência de um grupo e de um padrinho, Etc., etc., etc. Faça tudo isso e você terá um despertar... Veja que não muda nada; mudou somente a receita do mesmo bolo insosso. Vai ocorrendo um lance de não mais ter porque de entrar nisso, tipo a cena do elevador no filme “Revolver”.

O: Sim! Colecionar livros e mais livros de autoajuda, filosofia, sociologia e espiritualidade... Com isso, a estrutura vai tão somente se transvestindo, mas continua sempre presente; e nessa forma de se transvestir, a estrutura se torna mais perigosa, pois fica difícil de ser percebida pela grande maioria que se encontra ainda em estado de ignorância quanto ao fluxo e estrutura do imaginal sensorial condicionado. Parece que uma estrutura espiritualizada é o seu maior disfarce.

F: Exatamente. A roupagem mudou de tal forma, que a estrutura agora se torna uma “personalidade muito importante”.

O: Uma estrutura que agora simula ser livre, ser iluminada, ter encontrado sua exata natureza incondicionada.

F: Sim, se sentido superior, afirmando: “Agora que sei tudo isso estou acima” etc., etc., etc.

O: Como a estrutura medrosa e confusa precisa se agarrar a algo ou em alguém, quando se depara com uma estrutura que simula ser liberada, faz dela um guru e, assim, alimenta a ilusão e a dependência entre ambas estruturas.

F: Acho que estamos vendo o mais profundo dos condicionamentos. Por ser insegura, prisioneira de medos ainda não observados com clareza, a estrutura se inquieta, reage, pula, se transveste.

O: E o outro, igualmente inseguro, inquieto, pula e se agarra na estrutura transvestida de espiritual e se transveste de seguidor.

F: O padrão, agora, vira o guru e sua descrição; os princípios a serem praticados, agora não são mais os dez mandamentos ou doze passos dos grupos anônimos, mas sim, as falas dos gurus...

O: E o looping da ilusão permanece, criando um sonho dentro de um sonho dentro de um sonho.

F: Sim! E a busca segue em outro tipo de  busca. Outra cenoura entalada no nariz, com mais um padrão de ajustamento e simulação de clareza e liberdade! E mais livros, vídeos, áudios e satsangs no lugar de missas e reuniões. Mais, mais e mais do mesmo ilusório... Novas formas de mútua exploração!

O: Sim, permanece o looping do cálculo autocentrado, só que agora, num imaginado modo superior de espiritualização. É disso que sempre surgiu a dualidade autoridade-seguidor: o feiticeiro, o padre, o bispo, o papa, o pastor, o sacerdote, o xamã, o mestre, o guru... Uma grande trama de mentes confusas, dominadas pelo medo, buscando por uma forma de segurança ilusória... Uma grande colcha de retalhos de mentes com base no medo.

F: E o padrão segue com mais, mais e mais... Agora faz sentido, que nada disso faz sentido! Segue a dança, segue o processo de descondicionamento... Ficamos com as coisas como são, mesmo ainda não sendo o que são de fato; é como que um basta para as interpretações e divagações do confuso imaginal. É um “cala boca” na estrutura. Isso aqui consome a identificação com todas as ilusões criadas ao longo de milênios, destrói tudo! Melhor ninguém ler isso, se ainda quiser continuar com algum padrão de busca condicionada.

O: Por isso ficamos nesse período de limbo, nesse período em que não somos capazes de perceber alguma ação que faça sentido colocar essa imensa energia que surge, por meio do processo de descondicionamento. No fim de tudo, o indivíduo, se não pegar esse lance da observação, termina dando pipoca para algum tipo diferente de macaco.

F: Exato! Não o macaco em si, mas o macaco imaginado como super-homem ou semi-deus!