25/01/2021

A renúncia como condicionamento supremo

O: Outra coisa que me parece ser interessante observarmos juntos... o condicionamento de ter que praticar alguma espécie de "renúncia"... renunciar a vontade própria e se entregar à vontade do guru, renunciar a vontade própria para poder ganhar "O reino dos Céus", o "Despertar Espiritual", o "Espírito Santo", a "Recuperação", a "Salvação", seja lá o nome que você queira retirar de qualquer cultura. O condicionamento de ter que fazer sacrifícios externos para o alcance de uma imaginada qualidade interna.

F: A ideia da necessidade de renúncia está diretamente relacionada com o que abordamos anteriormente.

O: Veja que essa ideia da necessidade de renúncia de algum fator externo, isso está inserido até nos preceitos tidos por espirituais dos grupos anônimos.

F: Sim descobrir por meio da meditação, qual é a vontade de Deus, e a Ele rogar forças para poder cumprir com essa vontade.

O: A renúncia da vontade pessoal pela prática da vontade do Deus criado pela própria imaginação. Essa renúncia, ao meu ver, ainda é um ranço dos cálculos da mente com base no medo: eu lhe dou isso e você me dá aquilo que eu imagino ser necessário para o meu bem-estar.

F: Renúncia da vontade pessoal é o imaginal aplicando mais um golpe em si mesmo; ele renuncia a si, barganhando que ganhará algo ali na frente.

O: Então, vejo que tem um certo sentido na ideia de renúncia, mas não como esforço para se abster a um padrão de comportamento externo ou circunstância.

F: Eu já não vejo sentido algum nessa ideia de renúncia. Vejo sentido na compreensão do que é, como é.

O: Calma, calma, Vamos devagar aqui. O que vejo sentido na renúncia, diz respeito ao que dissemos agora há pouco, a renúncia de se identificar com o impulso de qualquer busca.

F: Sim, visto que toda busca, no sentido psicológico, só existe no imaginal.

O: A renúncia de alimentar qualquer tipo de expectativa, como dissemos.

F: Para mim, tudo que cai na rede do imaginal não é peixe. Para mim seria isso.

O: A renúncia do esforço pessoal, do cálculo, do uso do próprio imaginal como ferramenta de transcendência do próprio imaginal; a renúncia de se identificar com o conteúdo que o fluxo projeta; a renúncia de alimentar qualquer impulso emotivo reativo escapista.

F: A renúncia de algo que se imagina que possa aliviar toda confusão e inquietude. A renúncia, para mim, também é uma forma de identificação com o conteúdo que parte do fluxo condicionado pelo que se leu, ouviu ou assistiu.

O: A renúncia de fugir da inquietude, do vazio, do oco, da solidão, ou do que quer que esteja brotando do fluxo. Esse me parece ser o real sacrifício, essa me parece ser a renúncia real.

F: Ahaammmmmm... Está aí! Então seria uma estado que me tire de todo sofrimento que é a vida como é.

O: Fora isso, tudo que é tido por renuncio no que diz respeito a psique, vejo como medo, cálculo, fuga... uma fuga mais refinada, que deixa de ser por meio da maconha, da cocaína, do sexo, do flerte, da sedução, do dinheiro, do poder, do prestígio, para ser a fuga divinizada, santificada, sacralizada na vontade do Deus criado pelo confuso e inseguro imaginal. Como você recebe isso?

F: Me parece então que a estrutura, não querendo sentir a inquietude, busca imaginariamente, uma forma de escapar da vida diária!

O: Veja, a própria ideia da necessidade de renúncia, se sustenta numa base dualista, que também tem base na sua interpretação conceitual de bem-mal, defeito-virtude, doença-saúde, disfuncional-funcional.

F: Quer então ganhar algo extra, de se tornar algo especial? Renúncio isso, desde que eu tenha um estado alterado de consciência! Pegou a sutileza? É sempre o mesmo truque, mesmo mudando as imagens do baralho.

O: Tentamos o estado alterado da consciência, por meio das drogas licitas e ilícitas, por meio de bebidas enteógenas, e agora, tentamos pela droga de uma imaginada barganha celeste.

F: Exatamente. Ou mesmo pelo intelecto, tipo, obter um conhecimento específico, o qual melhore da dor inquietante do dia dia, no caso do assunto de agora.

O: Sim, mas a questão da aquisição de conhecimento, esse me parece ser ainda algo muito primário. Veja, parece-me que o mais forte e último dos condicionamentos, é a barganha do sacrifício sagrado.

F: Sim, com a expectativa de se tornar uma pessoa santa, boa, moral ou melhor... O conhecimento de uma nova crença, religião ou filosofia, não é mágica ou mística, que possa levá-lo à paz e felicidade eternas, não se trata de felicidade e tal, ou tipo uma liberdade de emoções e sentimentos de intenso sofrimento.

O: Veja, esse condicionamento do sacrifício, da renúncia, permeia o imaginal coletivo por séculos e séculos; ele está nos contos, nos filmes, nas novelas, nos cultos, nos jogos, no centro de quase todos, senão todos, sistemas de crença organizada.

F: Estamos detonando tudo por meio disso... A renúncia do eu, do ego, do mim, da pessoa... Mas o que não é percebido pela maioria, é que a renúncia para se livrar dele, ainda é ele criando o looping da renúncia.

O: Mas mesmo o eu, o ego, o mim, a pessoa, e a ação para a renúncia dos mesmos, parte da estrutura.

F: Exato! A renúncia para a solução dos problemas de relacionamento do eu. Percebe também aí a barganha, a continuidade do cálculo autocentrado?

O: A renúncia de si mesmo, sem dúvida, me parece mais um cálculo, mais uma barganha.

F: Sim. Renuncio o que penso para poder parar os pensamentos, mudar os pensamentos, me livrar dos pensamentos... Percebe?

O: É o Doutor Estranho barganhando em looping com Dormammu.

F: Sim! (Risos)

F: Autoaperfeiçoamento... Nossa mãe! Não se trata nada disso!

O: Acho que aqui, tocamos num dos condicionamentos dos mais difíceis de ser aceito pela mente coletiva.

F: Para mim, tudo isso ainda entra no looping das expectativas. Faz todo sentido. Um pacote de expectativas, no caminho da dita iluminação! (Risos)... Não tem jeito: a observação passiva e não reativa, quebra tudo, deita tudo ao chão...

O: Sem dúvida alguma!

F: Vamos colocar assim uma espessa camada de expectativas e narrativas, sobre a jornada imaginaria rumo à iluminação, adquirida de séculos, e estruturada por anos e anos de busca. Destruiu... Durma com isso, quem conseguir dormir... A observação arranca todo tipo de cenoura espiritual, arranca toda flauta mágica. Mano dos céus! Violência total! Verdadeiro mentecídio!

Observando a expectativa de um derrame de lucidez

O: Onde paramos?... No xeque-mate do processo de descondicionamento.

F: Sim, impossível de ver isso logo no início do processo.

O: Pois bem! Olhamos para tudo isso, e chegamos no ponto do xeque-mate do processo de descondicionamento.

F: Essa percepção é um novo choque. Perceber de cara que você está entrando em um barco que vai lhe deixar realmente impotente. Digo de fato, pois, inevitavelmente, sentirá isso.

O: Vimos que, talvez, o que é comumente chamado de "espera de um milagre" ou de "vinda do espírito santo", pode ser mais um dos loopings da estrutura, outro impulso emotivo reativo escapista.

F: Que nem você nem os outros sentem de fato. A espera é mais um looping, muda apenas a palavra seguinte. Isso tira grande energia que estava indo para estrutura.

O: Mas vemos também a necessidade da ocorrência de algo que nos habilite um feliz estado de perceber e sentir, algo que nos arrebate em novas e incalculadas possibilidades de ação, relação e conexão.

F: Se chegamos no ponto que sentimos a impotência real, então, a única coisa que resta, pelo menos é o que percebo até aqui, é algo além disso.

O: Algo que apresente ao atual cansaço de nossa vida, um encanto que não é racional nem logicamente deduzível de nenhuma outra coisa.

F: Penso que sim. Só que sentir a necessidade de algo não é esperar algo.

O: Penso que esse encantamento, nada tem a ver com o que os teólogos chamam de "um dom da graça de Deus", mas algo ainda não potencializado em nosso próprio organismo.

F: Chegamos num ponto de não saber o que é esse algo, só sabemos que nada tem a ver com o Deus da imaginação; algo novo, desconhecido, que não é produto dos delírios do imaginal condicionado.

O: Percebemos a vida através dos sentidos do organismo, certo? Nada além disso, não é mesmo?

F: Sim. O imaginal não pode entrar nisso. Percebemos pelos sentidos, interpretados após, de modo fragmentado, pelo imaginal ou no ato.

O: Percebemos que nossa capacidade de sentir está adulterada, e sentimos pelos sentidos. Então, a mutação precisa ser de ordem dos sentidos.

F: Não são apenas o que são como são.

O: Isso nada tem a ver com coisas do tipo: "intervenção" de um Deus projetado por nosso medo e confusão.

F: Nada daquele condicionamento de “Deus da maneira como concebemos”. Nada disso!

O: De nenhuma maneira.

F: Nada que venha do confuso imaginal coletivo ou pessoal.

O: Sim, pela observação, matamos o Deus de nossa confusa imaginação.

F: Jogamos isso fora, para nós, não mais existe tal entidade.

O: Vimos Deus como a mais elevada forma de condicionamento, o qual produz a mais ilusória das dependências. Já tentamos isso por décadas, sem alcançar qualquer resultado real.

F: Dependência do looping Deus.

O: Aliás, nunca sentimos nem o próprio Deus imaginado.

F: Nunca!

O: Nunca sentimos real e duradoura conexão com ele.

F: Sim, veja o absurdo: “Eu sinto Deus”... Que sentimento é esse senão o próprio imaginal? Nem tal sentimento existe.

O: O imaginal é capaz de gerar até uma gravidez psicológica, com alterações no próprio corpo. Nossa confusão não nos deixa ver a força de nossa insanidade: não conseguimos conexão com um ser humano, nem mesmo com a natureza, e queremos conexão com um Deus produzido por nossa imaginação, coisa que condicionamos como a busca de um “contato consciente com Deus”.

F: O que se vivencia, é uma neurótica e passante euforia rotulada de Deus. Isso é o que sempre ocorreu aqui. Passada a euforia, o medo, a inquietude e a confusão sempre estavam a minha espera.

O: Fato.

F: Visto isso, o xeque-mate é claro.

O: O fato é o xeque-mate, a impotência, a plena consciência da ausência de uma libertária lucidez.

F: Qualquer história trazida pelo imaginal, só tem o poder de gerar mais coisas imaginárias, e mais sentimentos ditos “desagradáveis”... Esse me parece ser o miolo do looping...

O: O que se apesenta como fato, é a total ausência de poder para transcender a condicionada estrutura com base no medo e no separatista cálculo autocentrado.

F: Isso é o fato. Não tem aquele que mude o que é visto, porque, ele mesmo, é parte da estrutura, uma invenção. Quando você vê isso com clareza, é game over! Barco virou com todos dentro... Igual o Titanic. Isso me remete àquela frase do Cristo na cruz... “Hoje mesmo vocês dois estarão lá comigo”... o imaginal e o sensorial condicionado em processo de morte, tudo indo pro saco.

O: O que há é a percepção de que, por melhor que seja o nível de nossa lógica e razão, carecemos de algo que nos proporcione uma dimensão acrescida de significativa emoção.

F: Isso que percebo aqui. O trem da lógica e da razão, como ferramenta para tentar compreender a estrutura, ainda está rodando... Mas a pergunta me parece ser: compensa investir nisso novamente? De novo? De novo? Não foi vista a falência desse trem?

O: Percebemos que tanto a lógica como a razão, se apresentam a si mesmas, com o passar dos dias, como ilógicas e irracionais. Percebemos que, no que diz respeito a transcendência plena dessa mente com base no medo, dessa limitada e traumática estrutura psíquica pela qual funcionamos, a lógica e a razão são como um frágil barco vazio, dotado de um enorme furo em seu “calado”.

F: Isso não se mostra lógico, muito menos óbvio para quem não viu o imaginal como fluxo não solicitado, e que não existe tal coisa como “pensador compulsivo”. Para mim, isso ficou direto e claro. Então, a estrutura se vendo condicionada, tanto no sentir quanto no pensar, por mais lógica e racional que ela seja, atinge seu ápice do processo de descondicionamento, percebendo que ela mesma é limitada, confusa, condicionada e nada pode fazer para sair disso.

O: Quando você chega aqui, resta ou não resta algum tipo de esperança?

F: Mesmo que haja, ela é vista como algo em vão, e acaba caindo por terra no ato em que é percebida.

O: Então o que fica? Conformismo estagnante? Morre o sentido daquela frase usada pelos cristãos: "Enquanto vivendo na esperança, aguardamos a vinda do Cristo Salvador"? (Seja lá o que você entenda por Cristo). Eu percebo aqui, a necessidade de um incausado derrame de amorosa, integrativa e criativa lucidez... uma capacidade desconhecida de sentir de percepcionar a realidade.

F: Não vejo conformismo... Veja: capacidade de ver o que é.

Outsider: A necessidade de um derrame de tal qualidade, me parece algo muito lógico e racional, visto que consideramos a impotência da limitada estrutura pela qual funcionamos, transcender a si mesma, por meio de seus confusos e militados esforços. O que me diz? Vimos até aqui, que o que convencionávamos por felicidade e amor, nada mais era, do que corriqueiras euforias sensoriais, com os quais conseguíamos algum alívio muito rápido, uma fuga momentânea da inquietude original que sempre fez a base do nosso estado de ser. Desconhecemos um estado de felicidade que não seja simples sensação de fuga da realidade. Tentamos essa felicidade por vários tipos de comportamento, por meio do sucesso, poder e prestígio, por meio do sexo e de relacionamento, meio do jejum, da busca de um modo de vida na simplicidade voluntária, por meio da abstinência de determinados padrões de comportamento obsessivo compulsivo, pelo uso do outro que, ilusoriamente, chamamos de “doação de nós mesmos”, pela prática do silêncio ou da observação do agora, e por tantas coisas mais, mas não conseguimos, de fato, isso que a palavra felicidade tenta apontar. Tanto pelo que vivi, quanto pelo que li de incontáveis relatos de homens e mulheres, sem um incausado e inesperado derrame de lucidez, nunca saberemos o que é o fim da confusão, da inquietude, do vazio, da solidão, da ausência de real conexão, das ilusórias e limitantes dependências e de outras sensações torturantes. Penso que sem o despertar de um estado de ser psicologicamente autossuficiente, nos é impossível o conhecimento do que é liberdade, felicidade e a comunhão de uma vida impessoal. Aqui ocorre a certeza, de que nada que venha do imaginal condicionado, tem o poder de nos levar a esse estado peculiar.

F: Esse é o ponto chave: o imaginal ainda imagina o que deve ocorrer para que algo mude tudo, mas ainda é ele. A percepção disso nos joga no que temos de fato, no que é real agora... digo, a observação passiva e não reativa, diante do que sentimos... Seria conformismo se nem aqui tivéssemos entrado... se estivéssemos seguindo o mesmo trilho dos que nos cercam...

O: Nossa cultura, ao longo de seus séculos, sempre enfatizou a necessidade de autonomia material e financeira, como o fator primordial de toda busca. Para mim, percebo que isso é um fator secundário a ser perseguido, pois temos visto homens e mulheres que, mesmo vivendo em situações abastadas, acabaram por colocar fim a própria vida, por causa da ausência de autonomia psíquica. Para mim, o despertar ou a recuperação de tal estado de autonomia psíquica, é a mais importante de todas as capacidades humanas.

F: Tanto faz o indivíduo ter esse tipo de sucesso ou não. Vamos dizer que conhecemos o que temos, ok? Digo que precisamos do financeiro para manter o básico, mas jogar isso como meta, é o mesmo que correr atrás de algo ilusório, pois vamos dizer assim e duramente, “o fim” nos aguarda, com ou sem sucesso financeiro. Para mim, a busca do sucesso material e financeiro, a importância da construção de uma sólida carreira com vista numa aposentadoria privilegiada, esse é o principal fato a ser negado do conteúdo do imaginal condicionado. Reconhecer esse fato, é algo muito doido para a estrutura pela qual funcionamos. Por isso que eu lhe questionei logo cedo: Será mesmo que existe algo tido como permanente, até mesmo no modo de sentir? Pois, para mim, toda questão me parece que joga nessa pergunta, caso contrário, me parece que estamos numa utopia. Isso tendo em vista que já sentimos algo distinto da realidade de tudo agora percebida,  mas que, igualmente, não permaneceu.

O: Já vimos que foi por ação do medo, que saímos daquele inenarrável estado de bem-aventurança. A queda por ação do medo, também foi confirmada na experiência relatada de muitos homens e mulheres, o medo como fator de queda de tal estado.

F: Vimos também que aquilo entrou sem nada, sem nenhum cálculo ou esforço de nossa parte... o medo, que é a própria estrutura, adulterou a continuidade da experiência. Foi o medo que nos trouxe de volta ao estado em que estamos agora, o qual tem em sua base, o próprio medo. Isso é o que me parece. Mas nada podemos fazer para atingir aquilo, a não ser que possamos fazer algo?

O: Já vimos que o Incondicionado, não pode ser condicionado por nada, pois, se assim, fosse, não poderia receber a qualidade de Incondicionado... Mais uma partida do imaginal e mais um Looping no xeque-mate.

F: Isso. Podemos então, chegar aqui e ficar com a observação de toda expectativa, até mesmo do que chamamos de um “derrame de lucidez”? Vimos que qualquer tipo de expectativa, retroalimenta a estrutura, é um gás para sua energia. Ficar com a observação dessa expectativa, somente por esse fato, nada mórbido ou depressivo nisso... Apenas realmente deixar a estrutura  sem nada... Sem onde ter como apoiar sua cabeça... Isso faz sentido?

O: Sim, totalmente... O que temos agora, neste momento do processo, é a observação passiva e não reativa da expectativa de uma experiência que produza um fechamento no fluxo do imaginal sensorial condicionado.

F: Exatamente! Veja, esse ponto é fundamental... Me parece que esse tipo de expectativa, se mostra como fonte de aquisição de alta energia para a continuidade da estrutura, uma vez que ela aumenta o que chamamos de inquietude original.

O: Faz sentido. Se não aumenta a inquietude, no mínimo, a mantém.

F: Então, podemos compreender essa expectativa, digo ver como isso é, e ir se conscientizando desse truque da estrutura, ou então, voltar a velha busca, a montar no trem da busca sem fim... Deixamos de correr para dinheiro, poder, prestígio, sexo e relacionamento não dependente, mas passamos a correr para um algo que imaginamos que vá nos brindar com liberdade, felicidade, real conexão e amor impessoal, visto que ainda estamos sentindo a mesma inquietude, da mesma maneira. Então, ficamos com esse inquieto sentir, dessa maneira e ponto final. Vimos, então, toda limitação.

O xeque-mate do processo de descondicionamento

F: Você pode tentar transcender a limitação imposta pela estrutura condicionada, pela mente adquirida com base no medo, mas, se for sério, perceberá que o pensamento automático e condicionado, logo terá a próxima pergunta pronta, sempre criando novos loopings para os quais não encontra respostas, portanto, sustentando nossa limitação de expressão. O fluxo mecânico e não solicitado perdura, o que podemos fazer, no momento, é simplesmente “assistir” seu mecanismo de funcionamento, de modo passivo e não reativo, assistir e sentir, sem se entregar ao vitimismo ou a revolta, as sensações que ele sempre produz. Nosso próprio sentir está condicionado, então, é apenas assistir os loopings de incompletude, de vazio, de inquietude, de questionamentos... tudo que vai surgindo.

O: Sim.

F: O que vai surgindo e que vai sendo percebo aqui, sendo muito sincero, é uma coisa do tipo “mansidão”; vou colocar assim, porque não acho palavras. Há uma percepção e um sentir de tudo isso, sem desespero, sem impulso para sair correndo atrás de alguma forma de narcotização ou de explicação de terceiros, sem qualquer tipo de esforço, sem a presença daquele antigo impulso ácido de julgar e de querer responsabilizar alguém pela qualidade do que sentimos. Vejo isso muito claramente.

O: Entendo, mas creio que a palavra “mansidão”, ainda não cabe aqui.

F: Ok! Não acho palavra mesmo.

O: Penso que a palavra “neutralidade”, seria um pouco mais aplicável.

F: Pode ser também, porque a palavra não importa muito. Só para tentar comunicar.

O: Certo.

F: Algo ligou um responsável e pacífico “foda-se” geral.

O: Vejo que essa observação passiva não reativa, arrancou de nós aquele antigo “minha culpa, minha tão grande culpa”, tão condicionada pelo sistema católico, aquele sentimento de sermos responsáveis por sermos e sentirmos assim.

F: De fato, a observação arrancou isso, o que não significa que nos tornamos levianos.

O: Isso também tira o vício de querer culpar o outro por nossa incapacidade de manter real conexão, por nossa percebida carência de lucidez e autonomia psíquica.

F: Além de toda forma de mimimi, arrancou também a tentativa de entender tudo isso, por meio dos limites da lógica, da razão e do esforço pessoal.

O: Sim. Hoje vemos a nós mesmos e aos demais, nessa neutralidade, com a consciência de que não tem como ser diferente.

F: Isso está cada vez mais claro: somos todos prisioneiros no meio de prisioneiros.

O: Sim, um looping de adultos adulterados adulterantes. É o que percebo até aqui.

F: Você vê que a estrutura é a mesma, então, não há como culpar ninguém, porque todos sofreram o mesmo tipo de adulteração, variando apenas, quem sabe, na intensidade do condicionamento adulterante.

O: Trata-se de uma condicionada estrutura psíquica forçosamente compartilhada transgeracionalmente.

F: Vemos isso sem nenhuma culpa, autopiedade, ranço, chororô, mimimi, nada.

O: Ela é instalada quando ainda não temos condições de estarmos conscientes de sua instalação e poder de adulteração da percepção da realidade.

F: Vimos também que somos totalmente impotentes no que diz respeito a uma mutação real, mutação que não produz recaída nos comportamentos da estrutura. Agora, como a observação se instalou, e percebemos nossa impotência diante dos loopings limitantes, o que podemos fazer é só assistir. Fazer qualquer coisa a mais que seja sugestão do imaginal, é permanecer alimentando a mesma insanidade. Percebemos que esse foi sempre o mecanismo de ação, o mesmo mecanismo que nos trouxe até aqui.

O: Percebo que a maioria de nós, também tenta essa conexão real, mas, como também funcionam na mesma estrutura, não conseguem, pois, inevitavelmente, sempre ocorre o choque entre aquilo que está sendo imaginado quanto a realidade do viver em comum; sempre ocorrem os choques entre os imaginais condicionados, os choques entre limitadas percepções da realidade.

F: Sim, o outro também tenta e, assim como nós, não consegue. O choque é realmente inevitável, como bem nos mostra a história humana; o imaginal, com seus impulsos emotivos reativos separatistas, sempre entra produzindo adulteração. E aí, quase sempre, quando nos tornamos conscientes, ao tentarmos reparar essas adulterações, criamos novas formas de choques e adulterações... Estamos presos num looping.  

O: Sim, sempre ocorre o choque entre as limitadas interpretações conceituais.

F: Cada vez mais claro isso, é bem assim que o mecanismo funciona. Vejo que ai está, por hora, o limite da coisa.

O: Não é difícil chegar na percepção de que todos, independente do seu grau de cultura, de sua classe social, do sistema de crença que alimentam, todos vivem com base no cálculo autocentrado, com a mesma mente com base no medo, portanto, com a mesma frieza dissimulada por um modo de viver politicamente correto.

F: Acabou! Trata-se de insanidade, continuar tentando modificar o que não podemos: estrutura não muda estrutura. Veja, chegamos no “the end”, onde não vivemos felizes para sempre. Aparentemente, o objetivo do processo de descondicionamento, por meio da observação passiva não reativa, foi por nós alcançado.

O: Aceitar a impotência no que diz respeito a transcendência dos limites impostos pela própria estrutura, parece-me o último estágio do processo de descondicionamento. Chegar naquele, “eu por mim mesmo, nada posso”...

F: Exato. A não ser, é claro que, insanamente, esperemos o ouvir do cantar dos anjos, digamos assim. A própria espera de um milagre, se você olhar bem, me parece ser um truque, um novo looping da estrutura. Entretanto, a percepção da própria impotência quanto a capacidade de transcender a si mesma, no que diz respeito aos limites da própria estrutura, coloca uma pá de cal nela mesma. Isso é o que aqui está sendo percebido e sentido.

O: É bem isso!

F: Não sendo mais responsáveis por tentar transcender nosso modo de perceber e de sentir, ao não mais tentarmos forçar conexão com tudo que é, com isso, chegamos no limite da própria estrutura, certo?

O: Acho que esse é o ponto mais radical em que, pelo limitado movimento pessoal, podemos chegar. Algo que não é causado por nosso cálculo limitado, precisa se manifestar em nós. Sem isso, parece que não há como ocorrer uma libertária mutação psíquica.

F: Chegamos num xeque-mate.

O: Sim.

O raciocínio lógico não supera a ausência de real conexão

O que de fato controlamos? Com o que estamos, de fato, conectados?

 

F: O que de fato controlamos? Com o que estamos, de fato, conectados? Percebo que nada!

O: Patético isso, esse viver ligado ao looping do imaginal sensorial condicionado, a esse looping de não saber o que fazer com a vida. É um carecer de lucidez que nos possibilite ficar livres da inquietude que não nos permite apreciar nada em sua totalidade. Tudo isso é visto com sobriedade, sem aquele antigo e neurótico desespero, o qual nos fazia correr para os mais diversos tipos de sistemas de crença, crendices populares, escolas, sistemas e programações. Permanecem os filmes mentais e emocionais, sem que ocorra qualquer identificação reativa, nem com os pessoais filmes internos, nem como os filmes do que se passa na sociedade. O modo de viver social, pelo que foi visto até aqui, para nós, se mostra algo absurdamente patético.

F: Percebemos a falência do que está estruturado, tanto em nós mesmos, como no que diz respeito a sociedade. A estrutura, seja ela pessoal ou que é de criação da estrutura social, não nos dá o poder de transcender de vez a estrutura psicológica.

O: Isso: carecemos de um poder superior a estrutura fria, calculista, complexada, débil, traumatizada, estruturada na inquietude do medo.

F: Tudo que vem da sociedade, no que diz respeito a transcendência da estrutura condicionada, já se mostrou inútil para nós.

O: Sim, não nos outorga o poder de real conexão com nada.

F: Único lugar dela é para fazer as coisas do cotidiano, no que diz respeito a sustentação do corpo físico, não vejo mais nada de funcional nela.

O: Se não ocorrer uma mutação total, uma formatação completa em nossa capacidade de percepção e sentir, estamos fadados a angústia e ao vazio que sentimos mais fortemente agora, uma vez que não estamos mais narcotizando esses sentimentos, com nenhum tipo de narcótico, seja ele socialmente aceito ou não.

F: Sim, estamos olhando para isso, e sentindo isso, de modo sóbrio pela primeira vez na vida.

O: Certo, que já ocorreu uma significativa mutação psíquica, a qual nos capacita a ver isso tudo sem pânico, sem desespero, sem correr atrás de crenças, pessoas e instituições.

F: Não há pânico em ficar com o que sentimos.

O: Precisa ocorrer uma nova mutação psíquica.

F: Vejo que só um milagre.

O: Sim, algo além de nossa ação tem que ocorrer... Uma luz no fim do túnel da estrutura condicionada. Estamos atravessando esse túnel de modo consciente, sem muletas, vendo o que somos, do jeito que somos, do modo como atuamos e reagimos, vendo as relações e atividades do jeito que são, pelo que foram formadas, vendo a sociedade do jeito que é... Não sabemos o que fazer com tudo isso, não sabemos como participar disso de modo significativo. Penso que ainda não vemos, de fato, o que é, mas sim, o que ainda imaginamos ser. Precisamos de um insight libertário, um abracadabra, um eureca, um "ah! É isso!"

F: O que ainda não há.

O: Uma percepção que nos salve da dor da consciência de total desconexão, uma percepção no mais fundo disso que somos, uma conversão para nossa versão não traumatizada, não condicionada, não maneirizada, uma versão que, psicologicamente, não depende de nada e de ninguém.

F: Pelo pensar, não tem como. O pensar, faliu totalmente, o pensar é impotente para isso.

O: De certo modo, uma grande mutação psíquica já ocorreu em nós, visto que perdemos o medo do medo, o medo da dor, o medo da inquietude; perdemos a necessidade de buscar respostas em circunstâncias externas, em crenças, em livros, em grupos, em vídeos, em mestres e, o mais importante, como você disse, na própria capacidade de pensar, ainda que nosso pensar mantenha a mais aguçada lógica e razão. Chegamos numa qualidade de percepção, na qual sabemos que nada que tem origem na estrutura pessoal ou social, tem o poder de nos redimir da inquietude proveniente da consciência de total ausência de real conexão, de genuíno e significativo sentir. Outrora, sem sombra de dúvida, tal qualidade de percepção, nos levaria ao desespero suicida.

F: Percebo isso também.

O: Aqui consideramos apenas uma profunda e independente mutação interna. A mutação ocorrida nos deu a capacidade de ficar com o que sentimos, por mais que inquietante, de modo silencioso e sem deixar que o meio perceba a qualidade do que ocorre em nosso interior.

F: Sim, a observação passiva e não reativa nos deu tal capacidade.

O: Carecemos da lucidez para saber o que é melhor não só para nós, mas para o bem comum. Durante anos, por vários meios, por vários tipos de filiações, tentamos chegar nesse melhor para nós, mas nunca o encontramos de fato.

F: Resumindo, queremos sentir algo bom, que não esteja dependente de nada. Há um cansaço aqui, uma enorme impotência.

O: Em meio de nossa impotência, há uma profunda ânsia pelo sentimento de algo bom, algo que seja “incausado”. Por mais que queiramos, não conseguimos manter conexão com nada... nem com mãe, nem com irmãos, nem com filho, nem com esposa, nem com natureza... por mais que tentemos, tudo fica na dolorosa superficialidade.

F: Isso, um oco, um vácuo.

O: Nossa angústia maior é essa: “Eu faço a desconexão que não quero e, a conexão que quero, eu não faço”. Por mais que eu queira, só sustento desconexão.

F: Pelo esforço lógico e racional, não tem como, já tentamos isso ao longo dos anos e só conseguimos insucesso.

O: Pela lógica, pela razão e pela moral, não conseguimos, pelo menos até aqui, a conexão que tanto buscamos. Pelo cálculo também não chegamos nisso, pelas negociações calculadas não conseguimos isso, não conseguimos nos sentir bem e em real relação com tudo que é.

F: Percebemos a instabilidade de tudo e é isso o que temos. Pela capacidade de raciocínio lógico, não superamos a ausência de real conexão, ao contrário. Isso é o que percebo até aqui.